17 de junho de 2013

GAPA: Gestão sustentável de água gera conhecimento entre agricultores


Visita à propriedade de Maria Vitória
A chuva que há meses não caía no cariri paraibano percorreu pelos caminhos de terra do Sítio Qualhada, zona rural do município de Cubati, durante os dias 13 e 14. A água alegrou os agricultores e agricultoras e não os impediu de participarem da Capacitação de Famílias em Gestão de Água para Produção de Alimentos (GAPA), orientada pela equipe da Unidade Gestora PATAC. Os cerca de 40 trabalhadores e trabalhadoras rurais participantes do encontro terão acesso a reservatórios de água do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).
Para entender e fortalecer o uso e o manejo sustentável da água foram desenvolvidas atividades de reflexão sobre a importância deste bem para o convívio com o Semiárido e sobre o arredor de casa enquanto espaço de desenvolvimento  do trabalho e de sociabilidade da família. Homens e mulheres discutiram a divisão de tarefas em suas propriedades. Isabela Cristina, facilitadora do GAPA pelo PATAC, explica que essa discussão é importante para a valorização do trabalho do homem e da mulher. “É importante para fortalecer os laços da família em casa e a relação entre marido e mulher, para que ambos não sejam sobrecarregados com o trabalho. Além de criar um ambiente mais saudável.”
 
Durante à tarde do primeiro dia os agricultores e agricultoras visitaram o arredor de casa de Maria Vitória de Medeiros, 41 anos. Ela mora no Sítio Qualhada e depois que teve acesso a uma cisterna-calçadão em 2012, Vitória começou a produzir alimentos sem agrotóxicos.  “Eu trabalho com canteiros agroecológicos e nessa visita eu não só mostrei como trabalho, como também aprendi com eles. Por exemplo, eu aprendi a plantar cenoura e beterraba e amanhã mesmo vou começar a cultivar.”  Maria Eulira de Souza, 58 anos, mora no Sítio Campo de Cima e conta como foi a visita a propriedade de Vitória. “Vitória usa canteiro feito de cimento e eu só uso umas pedras pra separar os canteiros. É fácil de fazer o canteiro dela. Quando eu ganhar minha cisterna eu vou fazer meu canteiro igual ao dela”.
 
Agricultora planeja arredor de casa
Quem não pode ir ao encontro discutiu com os familiares, em casa, o que deve mudar no arredor de casa com a chegada das cisternas e barreiros. A maioria dos participantes planeja iniciar o cultivo de hortas e fruteiros ou aumentar a produção de vegetais e frutas, enquanto o restante deseja utilizar a água para a criação de animais de pequeno porte. “Todo mundo tem um sonho e quando a gente recebe uma benção de Deus, como essa cisterna de enxurrada que minha família está ganhando, a gente tem que saber usar bem”, adverte Francisco da Silva, 39 anos, morador do Sítio Canoa Velha, e complementa, “eu planto laranja, acerola e outras frutas, mas a gente tem dificuldade pra aguar, porque tem pouca água, e fica todo mundo triste lá em casa. Com a cisterna que está sendo construída, é isso que quero mudar”.  
 
Para Antônio Carlos Pires de Melo, coordenador do P1+2/MDS pelo PATAC, a implementação destas tecnologias de armazenamento apresentam um diferencial. “O nosso princípio é a agroecologia. Ela que orienta o trabalho não só do PATAC, mas de todas as instituições da ASA envolvidas no P1+2, no sentido de resgatar, valorizar e irradiar boas experiências no processo de formação dos agricultores e agricultoras”.
Ao final do encontro, os agricultores e agricultoras foram orientados de como será o período de construção das cisternas e as responsabilidades das famílias, dos pedreiros e dos animadores.  Antônio Carlos avalia o encontro. “Nós atingimos o objetivo de dar visibilidade e valorizar o papel da mulher na produção nos arredores de casa e também planejar o que vamos fortalecer no caráter produtivo”.
 

Pedreiros participam de capacitação para construção de cisternas de placas em Cubati-PB

Cerca de 90 pedreiros estão participando desde a última terça-feira, 11 de junho, até o próximo domingo, 16, de uma capacitação para a construção de cisternas de placas dos Programas Um Milhão de Cisternas - P1MC(cisternas para água de beber e cozinhar), e Uma Terra e Duas Águas - P1+2, (reservatórios de água para a produção). O encontro teórico aconteceu na Capela da Comunidade de Coalhada, no município de Cubati, no Cariri Paraibano.
 
A capacitação é uma ação do P1MC, por meio da Unidade Gestora Microrregional Centro de Ação Cultural (UGM CENTRAC) em parceria com a Unidade Gestora Territorial PATAC (UGT PATAC) do P1+2. A formação tem duração de 48 horas e faz parte das atividades dos dois programas, que na Paraíba são desenvolvidos pelas organizações integrantes da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA Paraíba) com recursos do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), por meio do Programa “Água para Todos”.
 
O objetivo da capacitação é qualificar novos e antigos pedreiros nos aspectos técnicos e sociais, refletindo em uma melhor qualidade das construções no Semiárido.A formação é composta por momentos teóricos e por momentos de prática, onde o pedreiro iniciante ajuda a construir uma cisterna junto com um outro pedreiro mais experiente. “Essa parte prática leva mais tempo, pois é preciso que o pedreiro aprenda fazendo ele mesmo, então cada cisterna é feita por um número pequeno de pessoas”, explica Zilma Maximino, coordenadora Do P1MC na UGM CENTRAC.
 
O evento reuniu pedreiros experientes e iniciantesdas cidades de Juazeirinho, Pedra Lavrada, Soledade, Cubati e São Vicente do Seridó. João Batista Soares, 48 anos, é morador do Sítio Justino, zona rural de São Vicente do Seridó, e desde 2011 participa dos encontros. “Eu aprendi a profissão de pedreiro, trabalhando em São Paulo. Resolvi voltar para minha terra e construir cisternas, foi quando comecei a participar das capacitações. Hoje, eu e meu amigo, Nildo, já construímos umas 250 cisternas lá na região do Seridó”.
 
Muitos pedreiros que foram ao encontro estavam lá pela primeira vez. Juvelino Manoel de Almeida, 30 anos, é um deles. “Eu já construía cisternas, mas um amigo me chamou pra conhecer como as cisternas de placa são construídas. Acho importante participar da capacitação porque aumenta nosso conhecimento.” Juvelino diz que os pedreiros não são valorizados na região, mas está feliz em participar do encontro. “As pessoas vão precisar de um pedreiro uma hora ou outra. Mas a gente não tem muito reconhecimento. Esse encontro deixa a gente mais motivado pra trabalhar”.
 
No evento, os pedreiros e os animadores de campo, Afonso Martins, do PATAC, e Antônio Albuquerque, do CENTRAC, discutiram sobre os modelos de cisternas construídas no Semiárido brasileiro, como as cisternas de alambrado e as de plástico. Também avaliaram, através de fotos, os problemas em algumas construções. Os participantes foram orientados sobre a forma correta e segura de trabalho na construção de cisternas e sobre a importância de estocagem de água, alimentos e forragem para os animais. “Nós também discutimos com eles os compromissos do pedreiro, como por exemplo, no momento da construção, a importância de verificar e conferir o material recebido e desenvolver um bom relacionamento com a família beneficiária da cisterna, que vai acolher e auxiliar o pedreiro”, informa ZilmaMaximino.
No evento os pedreiros recebem ainda uma cartilha informativa com o passo-a-passo da construção, elaborada pelo CENTRAC em parceria com o PATAC. O Encontro de Capacitação de Pedreiros em Cubati será o primeiro de outros três encontros, que deverão acontecer nos próximos meses. Os demais encontros serão em comunidades de Pedra Lavrada (P1MC) e em Cubati (P1+2).

10 de junho de 2013

Começa escavação de cisternas e barreiros na zona rural de Cubati

 

Escavação de Barreiro Trincheira
Três Cisternas de Enxurrada, três Cisternas Calçadão, dois Barreiros Trincheira e duas Barraginhas já começaram a ser construídos na zona rural de Cubati, no cariri paraibano. As escavações nesta região começaram na quarta-feira (05/06) e já foram concluídas. Estas construções vão garantir o acesso de famílias à água para o consumo humano e para produção de alimentos, um direito básico e de todos.
 
A construção destes reservatórios é uma ação do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), gerido pela ONG PATAC, em Campina Grande - PB, em parceria com o Coletivo Regional das Organizações da Agricultura Familiar e financiado com recursos do Ministério do Desenvolvimento e Combate a Seca (MDS).
 
Na semana passada, iniciaram as escavações no Assentamento Dorcelina Folador (2 Barreiros Trincheira e 1 Barraginha), no Sítio Praia Nova (1 Cisterna de Enxurrada e 1 Barraginha), no Sítio Quixaba (3 Cisternas Calçadão) e no Sítio Canoa Velha (2 Cisternas de Enxurrada). Os barreiros já estão sendo construídos, enquanto a construção das cisternas deverá começar nos próximos dias, após o Encontro de Capacitação de Pedreiros, orientado pela equipe do Programa Uma Terra e Duas (P1+2).
 
A família de Eliana Rosemiro, 36 anos, e Francisco da Silva, 39 anos, é uma das que terão acesso a um reservatório. Ansiosos, eles acompanham a construção de uma Cisterna de Enxurrada no arredor de casa. “Tô muito feliz com a chegada dessa cisterna, vamos ter água de qualidade”, conta Eliana. O casal, que tem dois filhos, e há 15 anos mora no Sítio Canoa Velha, armazena água em pequenos reservatórios improvisados, de plástico. Francisco da Silva, diz que agora vai aumentar a produção de frutas e verduras e quer vendê-los nas feiras livres da região. “Agora a gente vai ter alimento de qualidade em casa e vou vender nas feiras pra gente aumentar a renda”, ambiciona Francisco.

João Batista e Maria Salete acompanham escavação
Quem também está feliz com a chegada de um Barreiro de Trincheira na comunidade, é João Batista Gonçalves, 67 anos. Casado com Maria Salete da Silva, 63 anos, há 13 anos e pais de 9 filhos, eles contam que a Barragem é a realização de um sonho. “Vai ser bom demais, a gente só tem uma pequena barragem. Agora, com essa maior, a gente vai ter como plantar todo tipo de fruta. Era nosso sonho", revela seu João.
 
Nesse atual termo de parceria, firmado entre o MDS e a Associação Programa 1 Milhão de Cisternas (AP1MC) da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), 67 reservatórios de água serão construídos no município, atendendo a demanda de  aproximadamente 300 pessoas.


4 de junho de 2013

PATAC e Centrac se reúnem para elaborar Encontro de Capacitação de Pedreiros

Equipes da Unidade Gestora Territorial PATAC (UGT PATAC) e da Unidade Gestora Microrregional Centrac (UGM CENTRAC) da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA-PB), estiveram reunidas na manhã desta segunda-feira, (03/06), na sede do PATAC, em Campina Grande, para a elaboração de um plano de capacitação de pedreiros em cisternas de beber, cisternas calçadão e cisternas de enxurrada. 

O Encontro de Capacitação tem o objetivo de qualificar novos e antigos pedreiros nos aspectos técnicos e sociais, refletindo sobre a qualidade das construções. Serão construídas 12 cisternas de beber do P1MC e 5 cisternas de produção do P1+2 (3 cisternas calçadão e 2 cisternas de enxurrada) com a participação de pedreiros experientes e iniciantes, o que permite a troca de experiências entre esses profissionais.

A capacitação deverá ocorrer a partir do dia 11 até o dia 26 de junho no salão comunitário da capela do sítio Qualhada, zona rural de Cubati, no Seridó do estado.  O Encontro de Capacitação de Pedreiros em Cubati será o primeiro de outros 3 encontros, que deverão acontecer nos próximos meses.


4 de dezembro de 2012

Cubanos conhecem experiências de convivência com o Semiárido na Paraíba

Um grupo de agricultores, técnicos e pesquisadores do Programa Asociación País (CPP sigla em inglês para Country Partnership Program) do Governo Cubano visitou a Paraíba entre os dias 26 e 30 de novembro para conhecer experiências de combate à desertificação e de convivência com o Semiárido desenvolvidas pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).

A visita, que contou com a parceria do Instituto do Semiárido (Insa), é um desdobramento de um ciclo de intercâmbios entre a ASA e o Governo Cubano para a troca de experiências de desenvolvimento rural referentes à gestão dos recursos hídricos, manejo integrado das criações animais, manejo da fertilidade do solo e a produção de alimentos. O Programa Asociación País busca desenvolver capacidades e condições em Cuba para o manejo sustentável da terra de forma que contribua com a manutenção da produtividade e funcionalidade dos ecossistemas. A delegação de cubanos é formada por seis pessoas de duas regiões extremas da ilha de Cuba: Rio Pinas e Zona Costeira de Maisí-Guantánamo. Ambas apresentam problemas severos de degradação da terra, assim como sofrem eventos climáticos extremos. Na primeira, tem-se alternância de períodos secos e chuvosos, mas na segunda vive-se uma seca crônica.

Foi para intercambiar conhecimentos que a delegação visitou comunidades rurais e experiências de famílias agricultoras na região de atuação do Coletivo das Organizações da Agricultura Familiar do Cariri, Seridó e Curimataú, na região do Cariri Ocidental e na região do Polo da Borborema. O grupo também teve a oportunidade de apresentar suas experiências de manejo sustentável da terra e luta contra a desertificação e da seca em um dia de programação na sede do INSA.

De acordo com Marta Paula Ricardo Calzadilla, da Unidade de Coordenação Central do CPP, que liderou a visita, a equipe ficou sabendo do trabalho da ASA quando participou, em 2011, de um encontro do “Projeto Palma”, em Havana. Naquele momento, um grupo da ASA Paraíba havia ido a Cuba conhecer a experiência cubana com a promoção da segurança e soberania alimentar e apresentar suas experiências: “aí conhecemos o Semiárido brasileiro e como se trabalhava aqui em função da sobrevivência com o Semiárido. Nossa coordenação de projetos, que trabalha para um manejo sustentável do solo, fez contato com a ASA para que pudéssemos vir trocar experiências”, disse Marta Paula.
“Ficamos surpresos como se preparam para conviver com a falta de chuvas. Em Cuba temos muitos bons agricultores, mas a maioria não está tão bem preparada. Outra coisa é a forma como se ajudam, as nossas cooperativas se ajudam bastante, mas é admirável como cooperam, tem isso de vamos contribuir aqui e amanhã ali”, completou Marta.

Adel Suarez Gonzales, vive na província de Pinar Del Rio, lado ocidental da ilha, zona menos árida. Ele ficou impressionado com a maneira com que as famílias agricultoras guardam forragem para os animais, o processo de silagem e como utilizam os recursos que possuem na propriedade como alimento: “Nós não usamos a palma para alimentar o gado. Fiquei muito surpreso como fazem isso aqui e os benefícios que traz. Com certeza vou experimentar, pois lá temos bastante palma, mas só a usávamos como barreira”, conta o agricultor.

Segundo Teudes Limeres Jimenez, Diretor e Pesquisador do Instituto de Solos na Província de Guantanamo, região semiárida de Cuba, que há 25 anos trabalha com o tema da desertificação, eles sempre tiveram acesso a biografias e notícias sobre experiências do México, também do Chile, mas não tinham conhecimento da imensidade que ocupa o Semiárido brasileiro: “Ao chegar aqui ficamos muito impressionados com o que vimos: uma comunidade muito organizada, que trabalha em harmonia com os técnicos da ASA e de outras instituições como o Instituto Nacional do Semiárido e que trabalham com muito amor e unidade. Temos visitado outras experiências em outros lugares mas, nunca tínhamos visto algo assim, aprendemos muito. Nosso país vem trabalhando a agroecologia há muitos anos, mas aqui vimos uma agroecologia sendo executada em condições muito difíceis, no entanto as famílias tem conseguido sobreviver e inclusive com certo nível de desenvolvimento, produzindo seu alimento e criando condições de moradia, de produzir alimentos sem veneno, livre de transgênicos”, relata o pesquisador.

O trabalho com as sementes e o manejo da água são experiências desenvolvidas que também impressionaram a missão de Cuba: “O que a ASA conseguiu junto ao Governo, o projeto das cisternas, é fenomenal. Nós levaremos isso também para Cuba porque é uma experiência que permite que os camponeses continuem vivendo no Semiárido, que não o abandonem, é a solução, porque vão ter a água para beber durante os nove meses que não chove. Creio que os agricultores que nos acompanharam durante a visita puderam ver com seus próprios olhos e tocar com suas mãos e saber que é uma realidade possível. Também um trabalho impressionante é o trabalho que estão fazendo com os bancos de sementes, sementes adaptadas à localidade, como as ‘Sementes da Paixão’. Nós dizemos que não podemos levar as sementes, mas levamos a paixão. E realmente é muito impressionante porque todo agricultor tem garantido suas sementes para quando chega o período da chuva”, afirma Teudes.

O intercâmbio evidenciou uma forte identidade entre as ações desenvolvidas pelo Governo Cubano e aquelas promovidas pela ASA e pelo INSA. Foi identificado um conjunto de pontos potenciais de colaboração e forte interesse de estreitamento das relações. Para tanto se propôs a elaboração conjunta de um termo de cooperação técnico-científica entre INSA-ASA e o Programa Asociación de País.

Base importante das experiências visitadas integram a ação do Projeto Terra Forte que tem o objetivo de contribuir para a reversão e prevenção dos processos geradores da desertificação e do empobrecimento da população no Semiárido brasileiro. O Terra Forte é desenvolvido pela a AS-PTA em parceria com o Polo da Borborema, Patac e AVSF e é cofinanciado pela União Europeia.


Redação: Assessoria AS-PTA 
Fonte: http://www.asabrasil.org.br/Portal/Informacoes.asp?COD_NOTICIA=7604

15 de outubro de 2012

Avanço do agronegócio na região Semiárida da Paraíba

Imagem da Internet
A comunidade rural Prainha do município de Cubati, localizado a 66,5 km de João Pessoa, ainda é caracterizada pela resistência da agricultura familiar. Inúmeras pequenas propriedades rurais tentam sobreviver em meio à falta de incentivos dos poderes públicos, o que na maioria das vezes força os agricultores a se submeterem as pressões do agronegócio.
 
Agricultores e agricultoras são submetidos ao trabalho informal, com baixíssima remuneração e sem nenhuma segurança. Trabalham semanalmente ou de acordo com o período da produção nas plantações de tomate e na mineração, mas mesmo quando possuem algum pedaço de terra, são muitas vezes obrigados (pela necessidade financeira) a arrendar suas propriedades para a monocultura à base de agrotóxicos.
 
Para além do caso de Rosália Barbosa de Souza, que veio a óbito por ter mantido contato permanente com os agrotóxicos enquanto trabalhava na produção de tomate, o descaso do poder público sobre as questões dos direitos trabalhistas vem ocorrendo com frequência em todo o estado. É recorrente os casos de irregularidades jurídicas, super exploração, trabalho infantil, acidentes, falta de equipamento de proteção e negligência dos direitos trabalhistas.
 
Nos casos de arrendamento de terras, além dos riscos à saúde da terra e das pessoas que permanecem residindo próximas aos plantios, a contratação é feita sem nenhuma segurança, não existe nenhum tipo de documentação ou registro do contrato. Durante o período do plantio à colheita a família fica impedida de, até mesmo, entrar na área cultivada. Ao fim da colheita, após quatro meses, o proprietário da terra recebe a quantia de R$ 1.000,00 (um mil reais) por cada hectare arrendado.
 
Durante o período de colheita dos tomates, praticamente toda a comunidade se envolve no trabalho. Homens, mulheres, adultos, jovens e mesmo crianças são levadas as plantações e recebem, ao fim do dia, cerca de R$ 25,00 (vinte e cinco reais) pela diária de trabalho.
 
Dona Maria de Sueli Lima Souza (mãe da jovem Rosália Barbosa) comenta revoltada com a situação, mesmo após a morte de Rosália, um de seus filhos continua insistentemente trabalhando nas plantações de tomate: “Eu to com um menino com o mesmo problema, trabalhando dentro da tomate! Eu já pedi, o pai já pediu pra ele sair, porque eles trabalham sem proteção nenhuma, mas ele não quer atender a gente. Diz que é o ganho que tem, que num pode sair que é o ganho que tem, mas ele num sabe que é a vida dele que ta em jogo, nem vendo a irmã morrer, que a gente tem quase certeza que foi isso, ele não atende ninguém, num quer, vai continuar trabalhando lá”.
 

Casa da família de Rosália
Todos trabalham sem nenhum tipo de proteção, manipulam e aplicam os produtos químicos sem sequer a utilização de uma máscara. Marizaldo Pereira Alves, esposo de Rosália, afirma: “Essa coisa de tomate não tem futuro, não. É muito veneno que o cabra engole, num tem roupa, num tem calçado, num tem nada, trabalho bem dizer nu dentro de um campo de tomate e os donos só quer saber deles, de ganhar e ganhar e pronto, mas o cabra que precisa, né? Tem que ir mesmo, aqui a renda que tem é essa (Bolsa Família), num tem outra, aí todo mundo vai mesmo!”.
 
De acordo com a professora de medicina da UFCG em Cajazeiras/PB, Ana Carolina de Souza Pieretti, aparentemente este não tem sido um tema de preocupação do conselho federal de medicina: “O órgão que mais tem tomado à frente nestas discussões tem sido a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), mas ainda apresenta dificuldade em refrear o uso de agrotóxicos pelo grande poder econômico tanto das empresas produtoras quando do agronegócio. Em minha opinião deve haver mais estudos e uma regulamentação mais forte, além da discussão na sociedade de que modelo de produção agrícola é bom para a saúde das pessoas. Certamente o agronegócio não é este modelo”.
 
Nesse contexto, diversos movimentos e organizações sociais ligadas à agricultura familiar camponesa lutam contra o avanço do modelo de desenvolvimento do agronegócio na região semiárida do país. No entanto a luta ainda é bastante desigual, e se torna inviável garantir o enfrentamento apenas com ações de acompanhamento e assistência técnica às famílias agricultoras. É o que aponta Maria da Glória Batista, representante da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA Brasil): “Temos trabalhado com a disseminação de iniciativas, dos cultivos, da criação de animais integrada e valorizando a biodiversidade local no desenvolvimento do semiárido com base na agroecologia, como a exemplo: o resgate das sementes nativas, dos animais nativos e adaptados, da recuperação, conservação e manejo da biodiversidade local”.
 
Dessa forma as manifestações populares tornam-se um importante instrumento de enfrentamento com capacidade de chamar a atenção dos poderes públicos e da sociedade sobre os principais problemas enfrentados no campo. Nesse sentido, as organizações e movimentos sociais cumprem com o papel significativo no processo de articulação e conscientização política. Maria da Glória, acrescenta ainda: “do ponto de vista político, vem sendo feito um trabalho junto às organizações, com a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, e demais campanhas contra qualquer iniciativa voltada para o agronegócio. Na região do semiárido, as organizações estão cada vez mais se articulando pra enfrentar o agronegócio através de campanhas, de processos de mobilização, de denúncia, no sentido de mobilizar a sociedade pra enfrentar o agronegócio. Um desafio que surge para todas as organizações desse campo, não só pra ASA, é articular, buscar diálogos e convergências junto às organizações para o enfrentamento ao agronegócio de forma coletiva”.
 
 
Patrícia Ribeiro
Comunicadora Popular ASA/Patac
Campina Grande/PB

AGROTÓXICO CAUSA MORTE NA PARAÍBA

Após trabalhar nos plantios de tomate, mantendo contato direto e intensivo com agrotóxicos, uma jovem agricultora com apenas 23 anos de idade, grávida e mãe de mais dois filhos, adquire grave doença que provoca sua morte no interior da Paraíba.
 
 
Desde abril de 2011, quando foi lançada a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, diversos movimentos sociais, grupos ambientais e demais organizações tem desenvolvido inúmeras ações de conscientização, denúncia e enfrentamento contra 07 empresas multinacionais que controlando mais de 70% do mercado de agrotóxicos no Brasil (Monsanto, Syngenta, Bayer, Novartis, Dupont, Basf e Dow), as quais estão diretamente ligadas ao grupo da bancada ruralista no senado.

Além de todas as ações se depararem com a omissão, negligência e mesmo a conivência do Estado, os movimentos sociais ainda enfrentam o silêncio das grandes mídias sobre sérias questões relacionadas ao problema do uso intensivo e indiscriminado dos defensivos químicos.
 
O Brasil atualmente é o campeão mundial no uso de agrotóxicos. Por ano, cada brasileiro consome cerca de 5 litros de agrotóxicos. Em consequência desse consumo absurdo de veneno, milhões de pessoas adquirem câncer e morrem anualmente, sem nenhum tipo de repercussão no noticiário da grande mídia.
 
Além disso, na maioria dos casos de morte em consequência dessas doenças, mesmo com a comprovação de exames clínicos, profissionais de saúde se negam a atestar nos laudos médicos a causa da morte como consequência do uso de agrotóxicos. Recentemente a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO) lançou o dossiê “Um alerta sobre os impactos dos Agrotóxicos na Saúde”, o qual confirma através de evidências científicas diversas doenças resultantes da exposição, contato, uso e consumo de componentes químicos encontrados em diversos grupos de agrotóxicos consumidos no país.
 

Rosália Barbosa de Souza
De acordo com o dossiê, as pessoas expostas a esses produtos podem além de sofrer com efeitos imediatos, como intoxicação e morte, poderão sofrer com o passar de meses, anos e até décadas, com o surgimento de doenças como cânceres, má formação congênita, distúrbios endócrinos, neurológicos e mentais.
 
Num caso recente, não foi preciso que nem se quer um ano, para que uma jovem viesse a sofrer graves consequências do contato com os defensivos químicos utilizados nas lavouras de tomate na região de Cubati/PB. Trata-se de Rosália Barbosa de Souza, uma jovem de 23 anos, agricultora, casada e mãe de três filhos, que faleceu no dia 18 de julho deste ano, devido à aquisição de uma doença pouco comum: a Aplasia Medular.
 
De acordo com Ana Carolina de Souza Pieretti (professora de medicina da UFCG em Cajazeiras/PB), a aplasia medular é uma doença relativamente rara que na maioria dos casos é causada por uma doença autoimune, quando as defesas do corpo passam a atacar as células da medula óssea onde o sangue é produzido, resultando em uma anemia profunda com comprometimento de todos os tipos de células do sangue. Medicamentos, radiação, vírus, drogas e agentes químicos também podem ser associados à toxidade medular:

“Além disso, diversos fatores, que podem gerar agravos à medula óssea, onde o sangue é produzido, têm sido correlacionados com aplasia medular e outras doenças da medula como leucemia. Dentre eles destacam-se os agrotóxicos dos mais diversos tipos. Durante os últimos 30 anos tem sido reportados na literatura científica casos de aplasia medular que podem ser correlacionados ao uso de agrotóxicos. Os organofosforados, classe de agrotóxicos cuja toxidade está bem estabelecida, causou uma chance 3,2 vezes maior entre agricultores para apresentar aplasia medular em determinado estudo com trabalhadores da Tailândia, que também mostrou um risco relativo 4,75 vezes maior de ter esta doença em trabalhadores expostos aos carbamatos (classe de agrotóxicos a qual pertence o Lannate BR, usado na cultura do tomate)”.
 
De acordo com a família de Rosália a doença foi identificada durante a gestação de seu último filho. Rosália ainda estava amamentando seu segundo filho, quando ficou grávida do terceiro, durante todo esse período ela manteve contato direto e intenso com os agrotóxicos utilizados no plantio de tomates.
 
Pais de Rosália Barbosa
“Ela trabalhou na plantação de tomate e ainda chegou apanhar tomate. O marido dela também trabalha, era ela que lavava a roupa dele quando ele chegava. Tudo isso é contato, né? Quando ela ia lavar roupa, chegava a sair aquela água diferente do veneno. Devido ela estar amamentando também e depois ter engravidado, as imunidade tava baixa, aí ficou mais fácil pra doença. Começou a aparecer umas manchas na pele, com uns dias começou a sangrar as gengivas e depois foi só ficando mais grave o caso” (Damião Barbosa de Souza, pai de Rosália).
 
Além dela e o marido terem trabalhado nas plantações de tomate. As terras em torno da casa onde a família residia foram alugadas para um dos maiores produtores de tomate da região, conhecido como o “Rei do Tomate”. Durante quatro meses a família esteve (literalmente) dentro do plantio de tomate, recebendo toda a carga de agrotóxico despejada pelo dono da produção.
 
Com 06 meses de gestação, ainda na Paraíba, o estado de saúde de Rosália começou a se agravar. Foi quando ela foi transferida para o Instituto Materno infantil de Pernambuco (IMIP) em Recife-PE. Lá a jovem permaneceu internada em observação e sendo submetida a inúmeros exames.
 
Ana Carolina ainda afirma que no caso especifico de Rosália, o fato da jovem ter mantido contato intensivo com agrotóxicos durante o período da gravidez é considerado um fator agravante:
 


Certidão de óbto de Rosália
“O momento da gravidez é um momento delicado quando o corpo da mulher engendra um enorme esforço para gerar e nutrir um novo ser. A medula óssea é demandada a produzir mais sangue, tanto que é muito comum que as mulheres apresentem anemia leve neste momento. Passa a ser um momento então que a medula estaria mais vulnerável a agressões externas o que poderia ter contribuído para a doença. Por outro lado, os agrotóxicos podem gerar más-formações e até morte do feto. Em estudo no Mato Grosso, a região que mais consome agrotóxicos no Brasil devido ao agronegócio, foi constatado a presença de agrotóxicos no leite materno, o que também pode gerar impacto na saúde dos bebes amamentados”.
 
Ao completar sete meses de gestação com o risco de morte materna e fetal, os médicos que acompanhavam Rosália, optaram pela indução do parto prematuro do bebê. A pesar do nascimento prematuro e com todas as adversidades da gestação, a criança nasceu bem e sem nenhum tipo de complicação. De acordo com Marizaldo Pereira Alves (esposo de Rosália), foram aplicados vários exames no bebê, mas até o momento nada foi detectado e a criança passa bem.

Esposo e os três filhos de Rosália
Após o parto, apresentando complicações no quadro da aplasia e insuficiência respiratória, Rosália foi encaminhada à Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde permaneceu em estado continuamente agravante, até vir a óbito no dia 18 de Julho. No laudo médico consta apenas que a causa da morte foi devido a “Hemorragia pulmonar e aplasia de medula óssea”.

Com a morte de Rosália a família além de sofrer com a perda forçada da filha, sente-se revoltada com a situação que permanece na comunidade com total descaso, sem nenhum tipo de fiscalização ou controle. Após relatar o ocorrido com a filha, Seu Damião desabafa: “Eu só vou dizer uma coisa, no próximo campo de tomate que tiver aqui de frente de casa, que nem teve esse aí, eu vou procurar quem quer que seja direito, dessa vez eu brigo na justiça, mas num aceito. Vão fazer lá dentro das terras onde são dono mermo, quer morrer vão pra lá! E deixa nós que quer viver aqui em paz!”.



Patrícia Ribeiro
Comunicadora Popular ASA / Patac
Campina Grande-PB

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