10 de março de 2015

"Pela vida das mulheres! Pela Agroecologia!"

Reafirmação da agroecologia como modelo de produção e denúncia do agronegócio são pautas de luta das mulheres do campo
Monyse Ravena - Asacom, Camila Paula e Patrícia Ribeiro - comunicadoras populares da ASA
03/03/2015
Para agricultoras familiares, camponesas, pescadoras artesanais, mulheres indígenas e quilombolas, o dia Internacional de Luta das Mulheres, o 8 de março, também é um dia de reafirmação da agroecologia como modo de vida, de falar sobre a necessidade da produção de alimentos saudáveis, recuperação das sementes crioulas, das plantas medicinais, nativas e frutíferas. Ao produzir alimentos saudáveis em seus quintais e roçados familiares e comunitários, elas enfrentam diariamente o poder das multinacionais que impõe sobre os povos do campo a padronização da alimentação.

No Semiárido, as mulheres se consolidam a cada dia como sujeitos do processo produtivo, presentes em todas as etapas desde o cuidado e semeadura da terra a colheita, passando pela guarda das sementes crioulas. Elas se organizam cada vez mais nas Associações, Sindicatos e Grupos e no processo de implementação das tecnologias sociais de convivência com o Semiárido participam do processo de conquista desde o início e constroem com as mãos na massa suas cisternas.

No Semiárido, tem cisterneira sim!
Ismênia é agricultora e cisterneira | Foto: arquivo CF8
Ismênia Marília da Silva, de 29 anos, mora no Assentamento Maurício de Oliveira, em Assu, Rio Grande do Norte, desde 2009. Separada do pai de sua filha, a pequena Vitória, de 8 anos, Ismênia se dividia entre os trabalhos do campo, de onde retira, até hoje, a base de sua alimentação e o trabalho de doméstica em casas de famílias a fim de garantir o sustento dela e de Vitória.

Devido à falta de recursos, às dificuldades com a agricultura e às humilhações sofridas nas casas dos patrões, Ismênia se encontrava em busca de outro trabalho para desenvolver sua renda quando soube da capacitação para cisterneira. Com um novo ofício, ela tem alimentado a esperança de viver melhor.

Durante o curso de capacitação e, depois, nas construções das cisternas, Ismênia e as outras cisterneiras enfrentaram como um dos obstáculos o machismo, a descrença de que não seriam capazes de fazer o trabalho dito de homem: “eles achavam que a gente não dava conta, mas nós mostramos na prática que somos tão capazes quanto eles”.

E mesmo a divisão sexual do trabalho sendo muito injusta na nossa sociedade por não considerar as tarefas domésticas que as mulheres executam como trabalho e por dividir os afazeres em 'trabalho de homem' e 'trabalho de mulher’, Ismênia gostou e se identificou muito com o serviço que lhe garante renda e autonomia de trabalho e arremata: “não existe trabalho de homem ou trabalho de mulher. Existe trabalho pra ser feito”.

Através da experiência de cisterneira, da união entre as companheiras de trabalho, Ismênia se sente capaz e animada para tocar a sua vida. E ao construir a sua cisterna em seu próprio quintal com a parceria de Rosa, Ismênia consegue olhar para o seu quintal e fazer planos de aumentar a produção para que possa ficar mais no campo, na sua casa, com sua filha. Hoje, no quintal, Ismênia cultiva feijão, macaxeira, acerola, goiaba, manga, banana, seriguela, laranja, coco e hortaliças, tudo sem veneno.

Explica que a terra é seca e que a falta de água quando não é inverno, impede o cultivo de outras culturas como o arroz que tanto gostaria de plantar, mas com a cisterna de produção de alimentos, e o aprendizado com o grupo de mulheres, além de cenoura, batata, beterraba, dentre outras coisas que ainda não cultiva em seu quintal e que vai deixá-lo colorido, as experiências coletivas e as oportunidades para melhor convivência com o Semiárido, fazem com que mulheres e homens cultivem mais do que plantas, a esperança de dias melhores. Dias melhores em que também possam ser superadas as situações de opressão e violência ainda muito comuns no meio rural.

O despertar pra si, na vida das mulheres camponesas

A violência contra as mulheres é um tema recorrente ao longo da história humana. Nas últimas décadas, devido ao avanço tecnológico, em especial das tecnologias da comunicação, tem sido atualmente mais visível e noticiada. Essa divulgação possibilita o crescimento da conscientização e do autorreconhecimento das mulheres vítimas do patriarcalismo arcaico ainda impregnado na sociedade, em especial nas comunidades rurais.


Prestes a completar 10 anos, a Lei Maria da Penha, é um dos principais fatores que tem contribuído para a notoriedade dos casos de violência doméstica no país. A Lei estabelece como crimes: abusos sexuais, controle patrimonial, ataques psicológicos e morais, além da violência física, ou seja, espancamento e morte.

No cariri paraibano, como em tantas outras regiões semiáridas do país, encontramos alguns exemplos de mulheres que despertaram para se reconhecer enquanto protagonistas de sua própria vida e, assim, reconheceram as situações de injustiças, violência e de submissão em que se encontravam. Uma violência que na sua  maioria das vezes é sutil, subjetiva, imperceptível ao olhar adaptado e direcionado pelo pensamento machista da sociedade.

Uma dessas mulheres é a agricultora Maria de Fátima, do município de Juazeirinho. Ela conta que com 32 anos de casada, sofreu inúmeros tipos de violência, mas não percebia. “Eu era cega, hoje eu enxergo com outros olhos”, diz ela. A vida de dona Fátima era de muita submissão, seu marido a proibia de sair de casa, até de ir à feira. “Ele bebia, me ofendia com palavras e gestos, chegando ao ponto de dizer que eu tinha que aceitar que ele trouxesse outra mulher pra nossa cama. Em 2006, quando eu comecei a participar das atividades do Coletivo Regional, percebi que essas coisas estavam erradas”.

Maria de Fátima é agricultora do município da Paraíba e percebeu os diversos tipos de violência que sofria quando começou a participar das atividades do Coletivo Regional | Foto: arquivo Patac
Outra experiência de superação é contada por Zilma Rúbia, atualmente coordenadora do Coletivo Regional das Organizações da Agricultura Familiar: “desde o nascimento somos tratadas de formas desiguais, mas essa situação só vai agravando com o decorrer do tempo”, diz ela.

Zilma conta que desde pequena sofreu com atitudes violentas do pai. Como muitas mulheres, ao completar 18 anos decidiu sair de casa para casar e ter alguma “liberdade”, mas como ela mesma diz: “nada teve diferença”. A violência e opressão só mudaram de endereço. Mesmo assim, viveu 15 anos e com muita paciência e força, conseguiu resistir a todas as adversidades, concluiu o ensino médio, começou a trabalhar para ter autonomia financeira, conseguiu fazer um curso superior. Todo esse processo lhe deu condições para tomar coragem, exigir a separação e sair de casa.

Atualmente Zilma vive em Soledade com um dos filhos, o outro decidiu ficar com o pai na zona rural, ela conta que se sente muito feliz pela coragem e força que conquistou nessa longa jornada: “Hoje tenho outra visão das coisas e muita vontade de ajudar outras mulheres que por falta de oportunidade, conhecimento e autonomia financeira se submetem a todo tipo de tortura física e psicológica”.

E assim a história vai mudando seu rumo. A troca de experiências possibilita a autorreflexão e reconhecimento na dificuldade enfrentada por outras mulheres. Consequentemente, as histórias de superação dessas mulheres dão força e coragem para superação de muitas mulheres que ainda estão “cegas”, como diz Dona Fátima, diante das violências que sofrem, mas que ao mesmo tempo, já deram o primeiro passo em direção a um novo mundo, mais justo, mais equilibrado e mais florido. 

O fortalecimento das práticas agroecológicas fomenta a mudança de paradigmas culturais tanto das práticas de cultivo agrícola, quanto das relações sociais que construímos no campo e na cidade. Essas mudanças têm como objetivo encontrar o ponto de harmonia entre o ser humano e o planeta, ou em outras palavras, entre o ser humano e sua própria natureza.

Mobilizações
Brasil - Também por conta da passagem do 8 de março a Via Campesina realiza sua Jornada Nacional de Luta das Mulheres Camponesas, onde milhares de mulheres se mobilizarão em todo o Brasil para denunciar os males do agronegócio. Em 2015, a Jornada tem como tema: “Mulheres em luta: pela soberania alimentar, contra a violência e o agronegócio”.

As mulheres camponesas realizarão mobilizações durante toda a primeira quinzena de março para denunciar o capital estrangeiro na agricultura brasileira e as empresas transnacionais, chamando a atenção da sociedade para o modelo destrutivo do agronegócio para o meio ambiente, a ameaça à soberania alimentar no país e a vida da população brasileira, afetando de forma direta a realidade das mulheres. Ao mesmo tempo, as camponesas apresentarão como alternativa o projeto de agricultura baseado na agroecologia, e propõe a luta em defesa da soberania alimentar.

Rio Grande do Norte - Ismênia será uma das 500 mulheres que estarão nas ruas de Mossoró, no sábado, dia 7, em uma mobilização pela passagem do dia 8 de março, dia internacional de luta das mulheres. Em Mossoró, o tema será “Corpos e territórios: resistências e alternativas para as mulheres”. Como denúncias, as mulheres trazem o Perímetro Irrigado do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs) na Chapada do Apodi, a especulação imobiliária e projetos de parques eólicos que ameaçam os territórios tradicionais da população costeira.

Paraíba – Zilma e Fátima estarão presentes na VI Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia que, este ano, acontecerá no município de Lagoa Seca, na Paraíba, próximo dia 12 de março. A Marcha espera reunir cerca de 5 mil mulheres.

|Fonte: http://www.asabrasil.org.br/

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