7 de novembro de 2014

Guardiões e Guardiãs reafirmam luta pela agricultura da vida durante IV Festa Regional das Sementes da Paixão em Santo André-PB


Texto: Áurea Olimpia

Foto: Áurea Olimpia
Mais de 500 pessoas entre agricultores e agricultoras, guardiões e guardiãs das Sementes da Paixão, estudantes de agroecologia, pesquisadores, representantes de entidades de assessoria e lideranças da Rede de Sementes da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA Paraíba), estiveram reunidos na IV Festa Regional das Sementes da Paixão, realizada neste dia 06 de novembro, na Comunidade São Félix, no município de Santo André, Cariri Paraibano.

A festa teve como lema: “Resistir às ameaças, cultivando vidas!” e foi realizada em preparação à Festa Estadual das Sementes da Paixão, que acontecerá em 2015. A programação teve início à partir das 7h, com a chegada das caravanas e a montagem da Feira dos Guardiões e Guardiãs, que expuseram e trocaram produtos e experiências da agricultura familiar agroecológica e dos 35 Bancos de Sementes Comunitários do território do Cariri, Curimataú e Seridó, região de atuação do Coletivo.

Após a animação no palco e a acolhida às caravanas, o evento foi oficialmente aberto com uma mística, dois jovens recitaram um poema, de autoria do agricultor Antônio José Torres, do Sítio Cachoeirinha dos Torres, em Soledade-PB, que trouxe as ameaças aos projeto de convivência com o semiárido defendido pelas famílias camponesas, bem como as estratégias que as vem permitindo resistir.  Os representantes dos 11 municípios que compõem a região fizeram uma entrada com a bandeira de cada cidade e símbolos da sua cultura, além do seu município representado em uma parte do mapa da região, decorado com sementes e outros símbolos de resistência. Todas as partes foram compondo um mapa, que aos poucos foi ficando completo e ficou exposto no palco durante toda a programação da festa. “É uma alegria estarmos aqui, a gente de Cubati, pode dizer que está mudando o mapa do município, que antes era representado só pelo sisal e pelo algodão, culturas que hoje já não servem mais pra nos representar, diante da diversidade do que estamos plantando, colhendo e guardando. É essa diversidade que hoje garante a nossa sobrevivência e nossa convivência com o semiárido”, afirmou Maria das Dores Medeiros, do Sítio Capoeiras, Cubati-PB.

Teatro - Em seguida, uma peça de teatro encenada pelo Grupo de Trabalho (GT) de Jovens do Coletivo, apresentou de forma lúdica e descontraída, as armadilhas em que muitos jovens são levados a cair, abandonando a agricultura para ir para a cidade grande ou a proposta sedutora do lucro fácil por meio da monocultura especializada.
Durante a peça, os atores interagiram com a plateia, que fez intervenções no conteúdo do espetáculo. A agricultora Isabel Araújo, da comunidade Poço das Pedras, em São João do Cariri, participou pela primeira vez de um evento como este e ficou impressionada com o impacto do uso do teatro na atividade de formação: “O teatro é importante porque a gente vê e depois a gente analisa. Eu vim a convite do meu irmão, que há muito tempo já participa do trabalho, vejo que muitos jovens caem nesse erro e tentam influenciar os pais, mas a gente precisa cultivar também a semente de não ter medo e ter coragem de trabalhar naquilo que conhecemos, pois todos nós somos capazes”, disse.

Após esse momento, o engenheiro agrônomo e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFPB), Campus Sousa-PB, Chico Nogueira, fez uma exposição dialogada sobre o significado de um evento como a Festa e a importância do trabalho de conservação e resgate de sementes e raças nativas, adaptadas à região semiárida: “Esse é um momento de reconexão com a natureza. Durante muito tempo, negamos a inteligência da natureza. Nós somos sujeitos da natureza e com as Sementes da Paixão estamos resgatando esse vínculo com ela e com toda essa sabedoria. Inteligente é quem cultiva vida e não alimenta a agricultura da morte”, afirmou.

Durante a exposição foi aberta à fala os agricultores e agricultoras que se sentiram provocados com a exposição de Chico. “O roçado é o berço de onde a gente tira e multiplica as nossas sementes, responsáveis pela segurança alimentar das nossas famílias”, afirmou Antonina dos Santos, do Sítio Pinhões, município de Santo André. A parte da manhã foi encerrada com a animação do trio de forró Asa Branca, também de Santo André, com as participações do sanfoneiro Joca Oliveira e do Padre Raniery Alves dos Santos, de Juazeirinho-PB.

Após o almoço, o período da tarde foi iniciado com as trocas na feira e o repasse simbólico de matrizes de caprinos para o Fundo Rotativo Solidário do Coletivo, que teve o apoio da entidade de cooperação Heiffer. O FRS do Coletivo já beneficiou famílias com mais de 600 animais em 12 comunidades de cinco municípios do território. Foi um momento de reafirmação dos animais como sementes fundamentais para a sobrevivência da agricultura no território. Foram repassados 15 animais, todos de raças adaptadas, para três famílias das comunidades de Malhada Vermelha e São Félix, de Santo André. José Moreira dos Santos, conhecido como ‘Zé de Conceição’, de Santo André, deu o seu depoimento sobre o impacto do FRS em sua vida: “Pra mim foi muito gratificante, a minha foi uma das primeiras famílias beneficiadas. Recebemos 6 matrizes e conseguimos reproduzir para 26 cabeças. Eu sempre digo as pessoas para cuidarem com carinho dos animais para no momento de repassar, a próxima família possa ter um animal nas mesmas condições que vocês receberam”, afirmou o agricultor, coordenador do FRS de animais da sua comunidade.

Campanha contra os agrotóxicos - Em seguida foi lançada a “Campanha contra os Agrotóxicos”, promovida pelo Patac em parceria com o Coletivo, no âmbito das ações do Projeto “Vida no Semiárido”, que tem o apoio de MISEREOR e o patrocínio da Petrobras. Na ocasião, as agricultoras Luciana Pereira da Silva e Quitéria dos Santos Cunha, ambas de Cubati, deram o seu testemunho sobre a experiência que tiveram com o uso de agrotóxicos, trabalhando em plantações de tomate. As duas mulheres relataram problemas graves de saúde e prejuízos financeiros, antes de optarem por uma agricultura limpa e saudável, livre de veneno. “Os agrotóxicos mentem ao dizer que vão acabar com as pragas. Os pesquisadores e quem usa os produtos sabem que, com o passar do tempo, os insetos se tornam resistentes e a pessoa vai ter que mudar para um veneno cada vez mais forte, porque aquele já não faz mais efeito. Essa mentira tem levado à contaminação do meio ambiente, ao adoecimento das pessoas e só enriquece a indústria de remédios e do veneno”, afirmou Antônio Carlos Pires de Melo, assessor técnico do Patac e um dos responsáveis pela campanha.

Após o lançamento da campanha, Chico Nogueira fez uma breve exposição sobre os transgênicos, ligada intimamente à indústria dos agrotóxicos: “O milho transgênico, por exemplo, é produzido em laboratório, já com o veneno dentro dele, com a promessa de afastar as pragas. Na prática, as pragas se tornaram resistentes e o uso dos transgênicos acaba vindo associado ao uso intensivo de veneno”, explicou. Foram então feitos testes de transgenia com amostras de milho trazidas pelos agricultores. Para tanto foi usado o chamado teste da fita, que em poucos minutos acusa a presença ou não de proteínas transgênicas no material avaliado.

Para o alívio dos participantes, os testes com as amostras deram negativo para a presença de transgênicos. Foram então distribuídos certificados para os guardiões e guardiãs das Sementes da Paixão livres de transgênicos. Um fato que causou preocupação entre os presentes foi que o teste com a mostra do milho distribuído pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) deu positivo para a presença de proteína transgênica. A preocupação é com o risco de contaminação das lavouras, já que, ainda que a distribuição desse milho seja voltada para a alimentação dos rebanhos, muitos agricultores inadvertidos acabam plantando estas sementes.

Enquanto os testes de transgênicos eram feitos e os resultados aguardados, uma “Rádio Poste”, montada no local, interagiu com os agricultores, agricultoras e demais participantes da festa, que aproveitaram para visitar a feira, trocar sementes e comprar produtos da agricultura familiar, além de artesanato e outros materiais. Ocorreram ainda oficinas paralelas de feno, sal mineral e biofertilizantes. A IV Edição da Festa das Sementes da Paixão foi encerrada então, com uma benção ecumênica das sementes, feita pelo Padre, por praticantes evangélicos, benzedeiras e rezadeiras da região, que aspergiram as sementes trazidas pelos participantes.

A festa é uma realização do Coletivo Regional das Organizações da Agricultura Familiar e do Programa de Aplicação de Tecnologia Apropriada às Comunidades (Patac) em parceria com a ASA Paraíba, a ASA Brasil, o Centro de Ação Cultural (Centrac) e com o apoio financeiro da entidade de cooperação alemã MISEREOR e o patrocínio da Petrobras.


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